O casal, a família e as crises contemporâneas

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O casal, a família e as crises contemporâneas

Convidada como terapeuta a falar sobre os casais, quero deixar claro que acredito no amor, aquele baseado na compaixão e acredito na relação também, baseada no difícil respeito às possibilidades e dificuldades do outro, para que ambos possam crescer. E apresento aqui um recorte, uma leitura possível ancorada em aspectos que considero bastante atuais.

As questões atuais do casal acompanham, como era de se esperar, as crises contemporâneas. As crises são tão múltiplas quanto são hoje as possibilidades de ser um casal e de ser uma família. Essas duas pessoas de que falamos aqui (o casal) foram formadas para a independência, mas moram com os pais até quase os 30 anos; têm ideais de liberdade e novos valores, mas casam-se de branco em comemorações que chegam a custar o apartamento que um dia terão que pagar. As mulheres lutam pela extinção da cultura machista, mas alimentam o imaginário de suas filhas de que são “princesas”, como as da Disney. Esse casal somos todos nós, imersos numa cultura de consumo e hiperinformação.

A globalização e o livre acesso à informação trouxeram muito mais instabilidade que aprofundamento nas relações. A constante exposição à mídia traz a idealização dos corpos que devemos ter para sermos amados, da casa mais confortável e de tudo que devemos comprar para sermos mais felizes.

No modelo antigo de família, você tinha um forte traço tradicional e o modelo a seguir já vinha praticamente pronto, com um mínimo de variações ou quebras de tabus. O modelo se sucedia geração após geração. Inevitável pensar, com nossa mente pós-moderna, que não havia espaço para o novo e muito mais para a repetição do que para a evolução. Por outro lado, havia uma certa comodidade em se saber o que seguir assim como a certeza do preço a pagar por escolher um novo papel ou comportamento fora do padrão nas relações familiares e de casal. Não havia muito de individualidade, a força maior era do cumprimento do papel de homem e de mulher. Casou, era casal.

Acredito que hoje o maior desafio do casal, seja, preservando a própria individualidade, dar conta da conjugalidade. Conjugalidade pressupõe a capacidade de ser íntimo do outro, significa viver no dia a dia o amor que um professou ao outro quando se escolheram. E, por outro lado, a busca de ambos pela realização pessoal e profissional, muitas vezes prioriza a individualidade em detrimento da conjugalidade.

Concluindo, me parece que aqui se coloca o grande desafio. Para se chegar a um casal, cada um tem que ter construída sua individualidade de forma sadia, como adulto. Esses dois adultos serão então um casal, uma célula independente das famílias de onde vieram, carregando cada qual sua história, mas no firme propósito de construir uma nova. A história do casal é construída na intimidade, na superação cotidiana dos problemas, na negociação de espaços internos e externos, por isso é necessário conhecer-se bem na própria individualidade\identidade, para poder sem riscos, mergulhar na aventura de dividir uma vida íntima com o outro.

MARIA RENATA MACHADO COELHO, co-coordenadora da Especialização Terapia de Casal e Família
Publicado originalmente em: Folha de Londrina

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